22 de abril de 2008

"Inéditamente", ninguém buzinou ao cair o sinal verde...

Ficaram a olhar, impavidamente, observando a cena "faroéstica" enquanto ela saía do carro a correr de chaves e mala na mão, seguida por dois homens, e subia a rua a correr deixando para trás o carro aberto, o 2º da fila de trânsito parado no semáforo rubro, onde entravam outros dois homens. "Inéditamente", ninguém buzinou enquanto o verde esperança, abismado, dava passagem e ninguém passava. Tudo estava estranha e boqueabertamente parado, de nariz colado ao vidro, sem pressa, sem stress, com muita calma e serenidade e sem fazer rigorosamente nada!
Ninguém perguntou, ninguém saiu, ninguém buzinou...até que alguém, daquelas pessoas à moda antiga - tempo em que se dizia bom dia ou boa tarde quando se entrava em lojas ou se comentavam os preços, o tempo, a vida, com desconhecidos porque não havia perigo em o fazer - que circulava em sentido contrário, parando abruptamente a marcha do seu veículo no meio da via, lhe pergunta saindo da viatura:
- "Precisa de ajuda?"
- Ajude-me... estou a ser assaltada!!!!
...e o mundo parado a ver os personagens da vida real sem mover um dedo, contendo a respiração, desejando ardentemente não ser notado e delirando de excitação porque teria uma história fantástica para contar, mas onde a primeira pessoa é ela, uma mulher, não eu, aliás, porque as histórias cada vez mais são contadas na 3ª pessoa, simplesmente porque ele, o medo, é mais forte do que ele, o apelo do outro.
Não é comigo...podem estar armados...podem vir a reconhecer-me...mais acima alguém irá ajudar...
Por sorte, ajudou quem estranhou, quem olhou e falou, quem apenas perguntou afugentando, assim, os 4 homens que fugiram monte acima.
- Onde? pertinho, no semáforo a seguir ao Shop Bar em Sta. Filomena.
- Negros? branquinhos
- Leste? português correcto sem sotaques
- Levaram o carro? não, ela tinha desligado e tirado as chaves da ignição - que sorte a dela!
- Roubaram o quê? um telemóvel que repousava em cima do banco do pendura
- Nome da vitima? Alguém
- Testemunhas? nenhuma, estava toda a gente distraída à espera que o sinal ficasse verde!

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